O conceito da Aposta de Pascal é frequentemente apresentado como uma estratégia lógica que oferece um caminho seguro; acreditar em Deus. Este argumento simplista sugere que, se Deus existe, o crente ganha tudo; se Deus não existe, nada perde. No entanto, este raciocínio carece de uma análise crítica mais profunda.

Primeiramente, ignora a multiplicidade de deuses e sistemas de crenças que existem e que já existiram, reduzindo todo o espectro divino a uma dicotomia simplista entre o Deus cristão e o nada. Em segundo lugar, a adesão a uma religião específica tem um custo, não apenas em termos de recursos materiais e de tempo, mas também no potencial de distorção ética e cognitiva. Por último, uma divindade omnisciente não seria facilmente ludibriada por uma fé nascida de um cálculo utilitário.

Estas são as raízes da Aposta de Pascal, uma jogada cínica em que o medo do desconhecido e do eterno sofrimento, ofusca a claridade moral. Já deixei de contabilizar o número de religiosos, inclusive figuras de liderança, que tentaram, outrora, dissuadir-me com esta noção; é uma ideia tão abjecta, como escatológica, e demonstra, claramente, uma real falta de integridade intelectual.

Contrapondo-se a Pascal, a Aposta do Malandro argumenta que talvez seja mais seguro não acreditar em nenhuma divindade, sob a suposição de que um Deus verdadeiro recompensaria o cepticismo e puniria a credulidade cega. A Aposta do Malandro revela a tautologia intrínseca na Aposta de Pascal, demonstrando que se pode construir uma argumentação igualmente persuasiva em favor do oposto.

Com estas apostas postas à mesa, avancemos para a hipocrisia moral que frequentemente permeia as comunidades religiosas. Na minha experiência, embrenhada na cultura católica, vejo um desvirtuamento profundo dos princípios de empatia e altruismo. Os cristãos que olham para o conflito em Gaza e o veem como um mero prelúdio para a segunda vinda de Cristo, exemplificam uma terrível corrupção do pensamento humano. É um exemplo flagrante do veneno imposto pelos religiosos, que distorcem princípios universais de humanidade e compaixão, em prol de uma narrativa nauseabunda que não apenas justifica, mas até celebra o sofrimento humano.

Este é, talvez, o maior perigo da religião; a capacidade de transformar virtudes em vícios, de perverter a empatia em indiferença e o altruismo em egoísmo, tudo sob o respeitável manto da fé. É um veneno silencioso, mas letal, que se infiltra nas mentes e contamina a alma, e cujo antídoto reside, muito possivelmente, na implacável busca pela verdade, desprovida de dogmas e aberta ao cepticismo.

A fé, frequentemente celebrada como uma virtude, torna-se na prática uma espécie de corrosivo moral. Ao operar sob o jugo da crença, a religião apresenta-se como um sistema ético completo, mas cujas fundações repousam em verdadeiras areias movediças de dogmas, mitologias e temores infundados.

É este receio que conspurca a essência da empatia, metamorfoseando-a num egoísmo dissimulado, e convertendo o suposto altruísmo num mero espectáculo de virtudes ostensivas.

Assim, o cristão, imerso nesta teologia de salvação pessoal, é compelido a priorizar o seu bem-estar eterno em detrimento da dor palpável e imediata do outro. Este é um cenário onde a bondade inerente é suprimida, adulterada, transformada em algo grotesco e antinatural.

A citação de Steven Weinberg, que tão bem articula esta perversão ética, torna-se terrivelmente relevante:

Com ou sem religião, pessoas boas podem comportar-se bem e pessoas más podem fazer o mal; mas para pessoas boas fazerem o mal — isso requer religião.

Esta corrosão da moralidade não é um efeito colateral indesejado; é, indubitavelmente, um produto da arquitectura da fé. A crise humanitária em Israel e Gaza serve apenas como um microscópio que amplifica esta deformação moral, evidenciando como é que a fé religiosa pode ultrapassar os limites da decência humana, ao ponto de alguém desejar a morte e o sofrimento alheios como etapas necessárias para a concretização de uma profecia divina; a segunda vinda de Cristo.

A religião, neste contexto, não é um caminho para a transcendência moral, mas sim um obstáculo. O humano é reduzido, confinado a categorias de salvação ou condenação, digno ou indigno, baseadas não nas suas acções, mas na sua adesão a um conjunto específico de crenças.

Despojemo-nos, portanto, destas máscaras de virtude, destes véus que dissimulam o carácter nefasto da fé cega. Renovemos a nossa aliança com um humanismo intransigente, imune às manipulações emocionais de mitos arcaicos e assombrosos.

Chegou a hora de romper as amarras intelectuais que, durante séculos, nos mantiveram prisioneiros de ideias tóxicas e nefastas. Digamos basta à complacência que fecha os olhos à miséria humana em prol de fantasias celestiais. Somente assim poderemos aspirar a um amor ao próximo e a uma benevolência genuínos, cristalinos e isentos das impurezas da crença irracional.