A MEIO CROMOSSOMA DE DISTÂNCIA


Estamos apenas a meio cromossoma de distância dos nossos primos primatas, os chimpanzés. Nessa fracção ínfima de ser, onde o invisível se torna visível, residem tanto as estrelas das nossas virtudes e feitos mais brilhantes, como as tempestades dos nossos defeitos mais terríveis e cruéis. Somos primatas altamente evoluídos, mas ainda assim primatas, e a nossa natureza, plena de mistério e maravilha, reflecte-se em todas as nossas acções, como um lago sereno sob o cosmos, capturando na sua superfície ondulante a complexa essência da humanidade. E assim, neste lago da existência, as ondas repetem-se em ciclos: eras de confiança dão lugar a eras de desconfiança, que cedem a eras de guerra, seguidas por breves momentos de paz, numa dança perpétua que ecoa o ritmo constante do universo.

As guerras, o tribalismo e a agressividade não são fruto de maldade inata ou pecado original. São ecos de um passado selvagem, manifestações de instintos ancestrais e impulsos primitivos que ainda tecem a trama da nossa natureza. A nossa origem humilde ressoa em nós, recordando-nos da nossa proximidade com o resto do cosmos.

As divindades que inventámos, tão repletas de idiossincrasias e vaidades, são o espelho das nossas próprias imperfeições. A criação desses deuses à nossa imagem revela mais sobre nós do que sobre o divino. É essa compreensão profunda da natureza humana que nos permite encontrar uma espiritualidade genuína, não no sobrenatural, mas na ciência, no cosmos, na literatura e na arte.

A fé, quando aceite sem qualquer reflexão ou escrutínio, torna-se uma lâmina de dois gumes que pode cortar a própria essência do que nos torna humanos. É a rendição da razão, a abdicação da centelha intelectual que nos distingue e nos eleva, filosoficamente pelo menos, acima dos outros mamíferos. Abandonar essa capacidade de pensar, questionar e racionalizar é trair a nossa verdadeira natureza, é reduzir a complexidade multidimensional do nosso ser a uma mera sombra, é falsificar o verdadeiro contorno da nossa existência. A fé sem razão, imutável e rígida, torna-se uma virtude empobrecida e supervalorizada, arcaica até. Na sua inflexibilidade, falha em reflectir a grandiosidade da mente humana e o seu potencial inexplorado, deixando de lado a complexidade e riqueza do nosso ser.

Os ateus veem este mundo como a nossa única morada, um lar partilhado com todos os outros seres-vivos, onde o nosso dever ecoa nas interacções humanas, fazendo o mais e o melhor desta efémera existência. A morte, como inescapável horizonte, só reforça a urgência de viver com intensidade, valorizando cada momento, cada sorriso, cada lágrima. A decência humana, essa flor delicada e resistente, não brota das raízes da religião, mas precede-a, nascendo do solo fértil da empatia e da compaixão, evoluídas ao longo de milhares de anos.

Somos feitos da mesma matéria das estrelas, mera poeira cósmica animada pela vida, ligados ao universo num abraço eterno e transcendente.. Quando olhamos para o sol, não vemos apenas uma esfera ardente, mas um eco de luz, uma visão que viajou por oito minutos através do vazio até alcançar os nossos olhos, um lembrete silencioso da nossa insignificância perante o cosmos. À noite, as estrelas brilham como fantasmas de um passado distante, algumas talvez já extintas, mas as suas luzes ainda dançam no firmamento, tecendo uma tapeçaria de maravilha e mistério. A sua existência e morte não foram em vão, pois tiveram de morrer para que nós existíssemos, uma sinfonia celestial que nos recorda, a cada momento, que somos filhos das estrelas, eternamente ligados ao grandioso e enigmático universo.

A meio cromossoma de distância, nessa ténue fronteira entre o que somos e o que podemos vir a ser, desvendamos não apenas a verdadeira essência da nossa natureza primata, mas também a luminosa oportunidade de transcender essa origem. Surge a real possibilidade de sermos mais do que a soma intrincada das nossas partes, de ultrapassarmos o nosso legado animal e caminharmos, com passos resolutos e cabeça erguida, em direção a um futuro impregnado de compaixão, racionalidade e humanismo. É um chamamento à excelência do ser humano, uma convocação para abraçarmos com afinco e dignidade, o magnífico desafio que é a nossa existência.


JOÃO NASCIMENTO – 2023